Francisco Maia & Associados
   

O mito da zona sul

Muitos já devem ter presenciado alguém comentar que a zona sul, ou região sul, é sempre a mais valorizada da cidade. Essa questão chegou até mesmo a um site imobiliário na Internet, que abriu uma discussão sobre o tema, indagando aos internautas se essa premissa se aplicaria à sua cidade.

Pelo que tivemos oportunidade de verificar a resposta não foi unânime, existindo inclusive diversas pessoas que pulverizaram as áreas de valorização, sem concentrá-la em um determinado ponto geográfico, embora podemos verificar que isso acontece no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia, enquanto foram indicadas Florianópolis, Fortaleza e Porto Alegre como a região norte e São Paulo e Curitiba como a região oeste.  

Muito embora não exista rigor científico na referida consulta, a própria diversidade de opiniões indica que a afirmativa é controversa, muito embora saibamos que foi construído um mito sobre o tema, que inclusive serve de referência pejorativa quando se pretende fazer um comentário depreciativo, taxando algo como “zona norte”, ou no sentido oposto como “zona sul”.

 A explicação para o fenômeno começa a ser desvendada com a defesa de uma tese de doutorado na Universidade Federal Fluminense, denominada “Segregação Sócio Espacial e Invenção da Zona Sul Carioca: 1920-1960”, onde a geógrafa Elizabeth Dezouzart Cardoso aponta que o tema foi “inventado” no ano de 1927 por um jornal carioca.

Segundo a pesquisadora, o tema não se origina de questões urbanísticas e muito menos decorre de leis de zoneamento urbano, mas em uma reportagem do jornal Beira-Mar, do bairro de Copacabana, numa reportagem sobre os “bairros sul”, trazendo referências ainda elogiosas sobre as condições de saneamento, embora, logo em seguida, faça nova abordagem do tema, ao referir-se sobre a abertura do futuro Corte do Cantagalo, citando “a expansão da zona sul, onde os terrenos estão se valorizando de forma incrível”.

Embora o termo só tenha chegado a um jornal de grande circulação em 1940, por meio de Correio da Manhã, a tese indica uma necessidade de afirmação dos bairros praianos, onde a zona sul possuía a imagem associada à beleza e elegância, muito em função das populações de Copacabana, Ipanema e Leblon, enquanto operários e empregados domésticos se refugiaram nas favelas.

Além das duas publicações citadas, a pesquisa abrangeu também a revista O Cruzeiro, onde a expressão aparece pela primeira vez em um conto do ensaísta David Nasser, onde se refere aos “black-outs da zona norte” e ao aumento da vigilância na zona sul”.

A pesquisa mostra que várias matérias apontam diferenciações da zona sul em relação a outras áreas da cidade, principalmente os subúrbios, e os termos que aparecem associados à região seguem essa tendência, como “elegância”, “grã-fino”, “aristocrático” & “chic”.

No mercado imobiliário a expressão ganhou espaço na seção de classificados, que agregou as colunas em “zona norte” e “zona sul”, o que aconteceu no Jornal do Brasil em 1959, no O Globo em 1968 e no Correio da Manhã em 1970, embora, segunda a tese, a expressão se consagrou no ano de 1959, com a música Balanço Zona Sul, de Roberto Menescal, que associava a região à beleza, calma, bem-estar, romantismo e sensualidade.

 

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